terça-feira, 3 de maio de 2011

Cinco tiros

- Cinco tiros.
Diz ele, por fim. Pega um taco de sinuca.
- É.
Respondo.
- Brincando de pegador?
- É. O PM pensou que era ladrão.
Passa a mão no rosto, como se enxugasse o suor que ali não há.
- Hoje?
- Cedinho.
Ficamos em silêncio. Ele dá uma tacada fraca, e o barulho das bolas rolando é o único que se pode ouvir.
- E a mãe?
Pergunta, mas sem olhar para mim. Concentra-se ainda na bola vermelha.
- Ela já sabe. Quando o viu, não queria largar o corpo.
Apóia o taco da sinuca no chão. Finalmente olha para mim.
- Já é o quinto garoto esse mês, sabe?
Ele diz isso seriamente. A luz fraca ilumina o ambiente, dando um ar ainda mais triste àquela noite.
- É. Um deles era...
- Ah, sim, eu soube. Eu sinto muito.
Novamente, ficamos em silêncio. Por algum motivo, ficamos constrangidos.
- Não sinta. Talvez tenha sido melhor. Ele estava metido com drogas.
- Eu... Eu sinto muito.
Afasta-se um pouco da mesa. Era minha vez.
A lâmpada sobre as nossas cabeças balança um pouco, rangendo. Eu apoio meu braço na mesa. Ele olha para mim, calado. Dou a tacada.
Atinjo a bola branca, que rola devagar em direção à bola azul, mas não a atinge. Faz uma curva e cai num dos buracos da sinuca.
De repente, o bar parece ainda mais vazio.

Imagem: http://www.corbisimages.com/images/42-24666773.jpg?size=67&uid=06b36450-4ed1-4967-8410-a6e3e2816f7b&uniqID=0323477b-ed0f-4411-8ba1-7dcc6692383e

Ana Beatriz Moura

Cinderela do Sertão

   Cinderela era uma linda menina que vivia no sertão com sua madrasta, uma malvada cangaceira, e suas irmãs postiças, que a tratavam como escrava desde a morte de seu pai.
   Certo dia, o filho do coronel decidiu dar uma festa. A madrasta disse que Cinderela não poderia ir, pois tinha que ficar em casa trabalhando. Cinderela, então, pôs-se a chorar.
   Um mandacaru mágico, ouvindo o choro de Cinderela, usou seus poderes para dar a ela um lindo vestido de chita e dois sapatinhos de palha. Também transformou uma cutia em um jegue, e nele Cinderela foi montada até a festa. Mas, o mandacaru mágico havia feito uma observação: "volte antes da meia noite, pois a magia irá acabar!".
   Ao chegar à festa, Cinderela deixou o filho do coronel encantado. Ele a chamou para dançar um forró pé-de-serra, e eles passaram a noite se divertindo. Ela nem lembrou de dizer o seu nome.
   Quando deu meia noite, porém, Cinderela teve que deixar o rapaz e ir embora correndo, pois a magia começou a se acabar. No caminho, um de seus sapatinhos acabou se perdendo.
   O filho do coronel achou o sapatinho e, no outro dia, procurou a dona da peça por toda a cidade. Ao chegar à casa da malvada cangaceira, ele encontrou as duas irmãs postiças de Cinderela, que tentaram se passar pela dona do sapatinho. Os pés dela, porém, não couberam nele. O príncipe ficou decepcionado. Mal sabia ele que Cinderela havia sido trancada no armário pela malvada cangaceira.
   Com a ajuda de suas amigas cutias, Cinderela conseguiu escapar e provar o sapatinho. Vendo que ela a moça da festa e o amor de sua vida, o filho do coronel a pediu em casamento. Então eles viveram felizes para  sempre.

Imagem: http://ericksonblog.com/blog/wp-content/uploads/2009/03/cinderella.jpg

Ana Beatriz Moura

Por um mundo em paz

   O planeta inteiro está tomado pelo medo e pela violência. As guerras no Oriente Médio, as ameaças terroristas e os criminosos comuns estão sempre no imaginário de todos. Porém, muitas pessoas vêm tentando reverter isso para o planeta voltar a ter paz. Existem algumas ações que o governo e o povo podem tomar para acelerar esse processo.
    Primeiramente, o governo deve melhorar a educação. Com uma boa educação, as crianças poderão, quando adultas, conseguir um bom emprego, e não precisarão roubar ou matar para sobreviver. Além disso, quem recebe uma boa educação tem melhores princípios éticos para diferenciar o bem e o mal. Prova disso é que os países mais ricos, que possuem uma boa educação pública, têm baixos índices de violência.
    Em segundo lugar, o povo precisa tomar uma atitude. As pessoas não podem ficar indiferentes, trancadas em suas casas. Existem inúmeros projetos que provam o poder que o povo tem de ajudar crianças carentes, evitando que elas se envolvam com o crime, e reabilitar ex-criminosos.
    Por fim, é necessária uma ação conjunta dos governos de vários países para a manutenção da paz entre as nações. Acordos que respeitem a cultura de cada país são indispensáveis.
    Em síntese, o caminho para se alcançar a paz ainda é muito longo. A população e o governo precisam se unir, para, assim, o mundo se tornar um lugar mais tranquilo e sem violência.

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Ana Beatriz Moura

O Pequeno Reino Qualquer

    Estava vasculhando minhas gavetas, procurando por qualquer coisa, quando, entre os muitos papeis, encontrei uma pequena coroa de papelão. Não era bonita, com sua pintura irregular e suas bordas mal-cortadas, mas, olhar para ela me levou de volta a algum lugar.
   Levou-me de volta a um pequeno reino qualquer com um nome estúpido. E, de repente, era eu a rainha do reino qualquer, e sob os meus pés encontrava-se um longo tapete vermelho. Meus súditos corriam e gritavam em minha frente, enquanto eu ria e arrumava a coroa em minha cabeça.
   Na realidade, era um reino simples, com castelos feitos de areia, um tapete que era, na verdade, uma toalha, sem banquetes e sem princesas com vestidos espalhafatosos. E, no canto, deitado sob uma árvore, encontrava-se o que acreditávamos ser um dragão: um pequeno labrador dourado que dormia sem ligar para o movimento.
   Nada disso, porém, parecia importar para os moradores do pequeno reino qualquer com um nome estúpido. Tudo era real e verdadeiro, até mesmo o dragão.
   Quando o tal dragão acordou, toda a artilharia do pequeno reino estava preparada. O ataque foi bem arquitetado, mas o dragão respondeu-o com poderosas lambidas. Percebemos então que ele era forte demais e que o exército do pequeno reino não seria capaz de vencê-lo.
   Por isso, preferimos erguer a bandeira branca e entrar em casa para comer uns biscoitos.
   Depois disso, eu estava de volta ao meu quarto, com a coroa na mão. Já não era rainha de lugar nenhum, era só uma pessoa grande segurando o brinquedo de uma criança. E pessoas grandes não podem ser reis, piratas nem astronautas, a não ser que de fato o sejam. Guardei a coroa e, junto dela, as lembranças que tinha do pequeno reino.

Imagem:http://www.corbisimages.com/images/42-20049891.jpg?size=572&uid=bafb7328-98ac-43dd-a5c4-2d0e228834cd&uniqID=04fe6ad9-700c-4881-8e78-f65c0fcbd800

Ana Beatriz Moura