Diz ele, por fim. Pega um taco de sinuca.
- É.
Respondo.
- Brincando de pegador?
- É. O PM pensou que era ladrão.
Passa a mão no rosto, como se enxugasse o suor que ali não há.
- Hoje?
- Cedinho.
Ficamos
- E a mãe?
Pergunta, mas sem olhar para mim. Concentra-se ainda na bola vermelha.
- Ela já sabe. Quando o viu, não queria largar o corpo.
Apóia o taco da sinuca no chão. Finalmente olha para mim.
- Já é o quinto garoto esse mês, sabe?
Ele diz isso seriamente. A luz fraca ilumina o ambiente, dando um ar ainda mais triste àquela noite.
- É. Um deles era...
- Ah, sim, eu soube. Eu sinto muito.
Novamente, ficamos
- Não sinta. Talvez tenha sido melhor. Ele estava metido com drogas.
- Eu... Eu sinto muito.
Afasta-se um pouco da mesa. Era minha vez.
A lâmpada sobre as nossas cabeças balança um pouco, rangendo. Eu apoio meu braço na mesa. Ele olha para mim, calado. Dou a tacada.
Atinjo a bola branca, que rola devagar em direção à bola azul, mas não a atinge. Faz uma curva e cai num dos buracos da sinuca.
De repente, o bar parece ainda mais vazio.
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Ana Beatriz Moura



