| TEXTO DE RV RIBEIRO |
Não sabia por que estava ali, acordara e não reconhecera nada, estava tudo diferente. Havia objetos nunca antes vistos e que não fazia idéia para que serviam. Estava assustada... Estava com medo... Percebeu que, na realidade, o motivo que a levou a despertar (de um longo e pesado sono) foi o insuportável barulho, o cheiro forte de... Não sabia identificar, só via uma fumaça cinza. Começou a tossir, e o seu desespero aumentou.
- Afinal, onde estou? O que faço aqui? Se acordei, por onde anda o meu príncipe? Não era ele quem deveria me acordar com um beijo verdadeiro?
Saiu correndo do recinto que se encontrava. Mas, não sabia para onde ir, que caminho seguir, quem procurar. E o pior, aquele cheiro era terrível e dava-lhe falta de ar, o barulho era insuportável. Pelos caminhos que andava não via verde, não via coelhinhos, fadas, flores, príncipes, castelos e até mesmo bruxas e dragões. Só via pessoas com roupas esquisitas, algumas levando cachorrinhos presos por uma espécie de "corda", coisas muito mais esquisitas em cima de rodas, torres muito altas... Parecia está em um pesadelo sem fim. Era pior até do que o feitiço lançado pela bruxa Malévola no dia do seu batizado. Sentou-se no chão e começou a chorar.
Com o passar do tempo, apareceram às três fadas madrinhas do seu batizado: Fauna, Flora e Primavera.
- Minha querida, sabemos que você não está entendendo nada, mas vamos explicar-lhe Aurora, disse Flora.
- Malévola lhe lançou outro feitiço e ainda pior do que aquele do seu batizado. Ela ficou sabendo que você e o príncipe estavam muito apaixonados e felizes e, com muita inveja, fez com que você viesse parar aqui, neste outro mundo. Vimos tudo que você passou e vamos explicar. Continuou Fauna.
E Primavera terminou dizendo: - Você foi mandada para esse mundo de seres humanos iguais a nós na aparência, porém totalmente diferentes. Eles não acreditam em príncipes encantados, mas em bruxas, sim... E como existem bruxas por aqui.
- Como assim? Não acreditam no amor? Perguntou a menina perplexa.
Primavera continuou: - Não. Por aqui, quase todos têm sonhos enterrados. Sabe o cheiro forte e a fumaça cinza que lhe fez tossir e o barulho que lhe acordou? O cheiro é do lixo que as pessoas jogam na rua ao invés de ser no lixeiro. A fumaça cinza é a poluição dos carros e das indústrias, que você chamou de “coisas esquisitas em cima de rodas” e de “torres muito altas”. Para você voltar ao nosso mundo terá que descobrir o amor aqui e lembre-se: existem várias formas de amar.
Aurora pensou e disse: - Então nunca sairei daqui, não acreditam em príncipes!
Flora disse: Calma, pense bem! Voltaremos quando você nos chamar e somente uma vez. E é como Primavera disse, existem várias formas de amar.
E assim as fadas se foram em uma nuvem de fumaça amarela. A bela menina ainda estava anestesiada, não sabia o que fazer, como acharia o amor se nem em príncipes acreditavam? Saiu pelo caminho que estava e com mais vontade de chorar, mas lágrimas mesmo caíram de seus olhos quando viu uma linda menina de seus 6 anos em um canto da rua e sozinha. Chegou perto e perguntou: - O que faz sozinha aqui doce menina?
E a menininha a olhou vislumbrada até que perguntou: Você é uma princesa? Que vestido lindo!
Aurora respondeu que sim e perguntou por que ela chorava e por que estava sozinha e, se ela quisesse, podia também ser uma princesa. A menininha olhou com "olhos pidões" e Aurora quis saber antes de atender o prometido:
- Você acredita em príncipes?
A menininha disse: - Acreditava, mas meu pai uma vez me disse para eu acordar para a realidade, que fadas não existem, que príncipe é coisa da minha cabeça e que eu devia trabalhar para não passar fome.
Aurora estava assustava com a história e também comovida. Como podia alguém dizer uma mentira dessas, inventar absurdos e ainda mais para uma criança! E disse: - Minha doce menina, não enterre seus sonhos, não deixe que certas pessoas façam com que você seja triste. Príncipes existem, fadas existem e são seres muito amáveis. A menina sorriu e aquele era o sorriso mais doce que ela já tinha visto. Aurora olhou para os lados e não viu suas fadas madrinhas então disse: - Flora! Fauna! Primavera! Apareçam, por favor.
Uma nuvem de fumaça amarela surge em sua frente e as fadas aparecem. Aurora conta a história e diz: - desenterrem os sonhos dessa doce menina, façam com que ela volte a ver a vida como no nosso mundo, diferentes desses egoístas aqui existentes. Esse é o meu pedido. Não importa se Malévola me quer longe do nosso mundo, os sonhos dessa menina é mais importante.
E de repente a fumaça cinza que antes existia, começou a desaparecer. O barulho insuportável estava transformando-se na melodia do canto dos passarinhos, as “coisas esquisitas em cima de rodas” e “torres muito altas” foram virando em carruagens com lindos cavalos brancos e em castelos maravilhosos.
- Parabéns Aurora, você descobriu o amor no mundo em que os sonhos não existem, no mundo em que as pessoas são egoístas e só pensam em si, no mundo onde os príncipes e princesas são trocados por bruxas. Disse Fauna.
- Mas como? Eu não encontrei príncipe algum! Aurora não entendia como conseguiu libertar-se.
Primavera explicou: - Minha doce afilhada, eu lhe disse que o amor possuía várias formas e você sentiu o mais puro de todos: o amor ao próximo, sendo capaz de desistir da sua libertação em prol da ajuda a quem nem conhecia.
Com tudo isso, Aurora, Fauna, Flora, Primavera e o príncipe viveram felizes para sempre. Quanto à bruxa, não se sabe, contam as más línguas que ela foi transferida para o mundo em que mandou Aurora, no século XXI e até hoje não descobriu as várias formas do amor.
RV RIBEIRO
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