quinta-feira, 24 de março de 2011

PERIPÉCIAS DO DESTINO

De repente Dona Carolina deixou cair o garfo e soltou um grunhido. Todos se precipitaram para ela, abandonando seus lugares à mesa: a filha, o genro, os netos: 
   -Que foi, mamãe?
   -Dona Carolina, a senhora está sentindo alguma coisa?
   -Fala conosco, vovó!
   A velha porém só fazia arranhar a garganta com sons estrangulados, a boca aberta, os olhos revirados para cima. Começou a bater com as mãos abertas na mesa, os talheres vibrando na mesa, o rosto tomado por pânico, e o desespero na face dos familiares. Eis então que leva à boca um copo cheio de água. As pupilas e o globo ocular voltam ao normal. A face outrora bruscamente enrubescida torna ao tom branco-amarelado, e a respiração volta a acontecer. Era só uma espinha de peixe, que, aparentemente não conformado com a morte, queria vingar-se de sua devoradora. Ele não conseguira, mas aquela era só a primeira parte.
   A pobre senhora depois do acontecimento partilhou de gargalhadas com os ali presentes, e se divertiu. Semana Santa, sem carne, só peixe. O primeiro dia já tinha sido assustador, porém os outros foram tranquilos, seguidos de filé do pescado. Mas, o último dia era especial. Esperava-se convidados. O almoço foi inteiro ao forno.
   Mas, o acaso é pertinente, e eis que a mesma cena de dias anteriores se repete. Os familiares logo tranquilizaram os convidados. Era só uma espinha. A filha ao lado fez o tal copo chegar à boca da senhora, mas não funcionou. Ela caiu ao chão, debateu-se, salivou, morreu. O peixe enfim conseguira sua vingança, e, o pior de tudo, nem pôde ser culpado. O culpado era um "AVC", e a ilusão de algo corriqueiro, que, acabou por seifar mais uma vida. A rotina e seus perigos mortais.
                                                                                               Jully Crisóstomo. 
foto:http://www.bing.com/images/search?q=o+grito&view=detail&id=70DA60536C7EBFB0AA1CB215C0CEC031E94C6623&first=1&FORM=IDFRIR

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