quinta-feira, 24 de março de 2011

Pedaço de terra

retirado de:http://farm2.static.flickr.com/1014/718364076_623e4a4642.jpg?v=0

                     

Ouvi primeiro o ruído de cascos pisando a grama, mas continuei deitado de bruços na esteira que havia estendido ao lado da barraca. Senti nitidamente o cheiro acre, muito próximo. Virei-me devagar, abri os olhos. O cavalo erguia-se interminável à minha frente. Em cima dele havia uma espingarda apontada para mim e atrás da espingarda um velhinho de chapéu de palha, que disse logo o seguinte:
            - Pode sair do meu terreno.
            Pensei em levantar e em sair dali, gritar, mas o cano da arma me fez pensar melhor. Sem outra alternativa, tentei argumentar:
            - Desculpe senhor, não sabia que este terreno era seu. Se o senhor tirar essa arma de cima de mim, posso arrumar minhas coisas e sair.
            O velho resmungava. Pude perceber ele tragando o cigarro. A sua roupa, um pouco suja, a camisa meio aberta. Ele olhava fixamente para mim. O sol estava nascendo e eu só ouvia o barulho de grilos e da respiração do cavalo perto de mim.
            - Diga-me, porque você está aqui? – O velho deu outra tragada no cigarro e jogou-o no chão.
            -Eu? Estou procurando um trabalho, de vaqueiro, soube que há vagas nas proximidades... – não sabia o que dizer. Sabia que ali havia uma arma apontada para mim. Comecei a me levantar e sentei na esteira. – conhece o “Seu morim”?
            Sua cara se fechou. Apertou com as mãos o cabo da espingarda. Ajeitou-se no cavalo, que começara a procurar a grama.
            -Você não parece ser daqui. – olhou para a minha barraca, examinou o local. – você parece ser um “olheiro”, ou estou enganado?
            -Não senhor, não sou não. – comecei a suar. Ele desceu do cavalo e começou a chutar de leve a barraca. Ser olheiro não era uma coisa boa. Principalmente para um fazendeiro.
            -Não gosto de gente invadindo minhas terras. – fez um gesto com a mão – Levanta e sai daí.
            Levantei-me. Enrolei a esteira, desarmei a barraca, pus tudo dentro do saco e fui embora. Andei e olhando para trás de vez em quando vi que o velho continuava ali. Ouvi um estouro. No céu, pássaros voavam assustados. Senti o chão. Cada vez mais fraco e com um peso imensurável em minhas costas. Estava morrendo. Nunca deveria ter aceitado esse emprego. 
                                                                                                            Estrela

                                                                                                                /o/

Nenhum comentário:

Postar um comentário